Que estranho é amar e se
encantar pelo distante, pelo que nega e desgosta do mundo estabelecido. Como se
pode gostar de Kafka? Como se pode amar o sentir-se expropriado? Pode-se. Sei
que se pode, embora o paradoxo não seja abandonado assim. Deveríamos estar no
mundo. Deveríamos nem sequer falar dele como se falássemos de algo de lá, de
outra coisa. Deveríamos simplesmente nos perder no mundo. Mas nós, amantes de
Kafka e de todo sentir-se fora, estamos estupidificados diante disso tudo. Que
absurdo é querer o mundo e não saber como tê-lo. Amamos o prazer, o riso.
Amamos a sensualidade, a dúvida. Amamos, mas não sabemos o que se faz para
explorar esses amores como o feitor diligente a seus escravos. Não somos
feitores. O mundo aparece estranho. Que desenraizamento. Que inveja das
árvores.
Sejamos árvores, postas ao vento e com folhas livres
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