terça-feira, 13 de maio de 2014

Bacon: o supersticioso sofre de amnésia



No aforismo 46 do Novum Organum, Bacon fala assim das superstições religiosas e filosóficas:
O intelecto humano, quando assente em uma convicção (ou por já bem aceita e acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo. Graças a isso, a autoridade daquelas primeiras afirmações permanece inviolada. E bem se houve aquele que, ante um quadro pendurado no templo, como ex-voto dos que se salvaram dos perigos de um naufrágio, instado a dizer se ainda se recusava a aí reconhecer a providência dos deuses, indagou por sua vez: "E onde estão pintados aqueles que, a despeito do seu voto, pereceram?" Essa é a base de praticamente toda superstição, trate-se de astrologia, interpretação de sonhos, augúrios e que tais: encantados, os homens, com tal sorte de quimeras, marcam os eventos em que a predição se cumpre; quando falha o que é bem mais frequente —, negligenciam-nos e passam adiante. Esse mal se insinua de maneira muito mais sutil na filosofia e nas ciências. Nestas, o de início aceito tudo impregna e reduz o que segue. Até quando parece mais firme e aceitável. Mais ainda: mesmo não estando presentes essa complacência e falta de fundamento a que nos referimos, o intelecto humano tem o erro peculiar e perpétuo de mais se mover e excitar pelos eventos afirmativos que pelos negativos, quando deveria rigorosa e sistematicamente atentar para ambos. Vamos mais longe: na constituição de todo axioma verdadeiro, têm mais força as instâncias negativas.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Kafka: do sentir-se fora



Que estranho é amar e se encantar pelo distante, pelo que nega e desgosta do mundo estabelecido. Como se pode gostar de Kafka? Como se pode amar o sentir-se expropriado? Pode-se. Sei que se pode, embora o paradoxo não seja abandonado assim. Deveríamos estar no mundo. Deveríamos nem sequer falar dele como se falássemos de algo de lá, de outra coisa. Deveríamos simplesmente nos perder no mundo. Mas nós, amantes de Kafka e de todo sentir-se fora, estamos estupidificados diante disso tudo. Que absurdo é querer o mundo e não saber como tê-lo. Amamos o prazer, o riso. Amamos a sensualidade, a dúvida. Amamos, mas não sabemos o que se faz para explorar esses amores como o feitor diligente a seus escravos. Não somos feitores. O mundo aparece estranho. Que desenraizamento. Que inveja das árvores.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A grande ideia nasce pra ser incompleta


“Cada opinião, cada observação é necessariamente parcial, truncada, insuficiente”. Em filosofia e seja no que for, a originalidade se limita a definições incompletas. (Cioran: De l’inconvénient d’être né).

 

O quanto desejamos que nossas ideias sejam completas, que digam tudo o que esperamos delas. Escrevemos livros com o propósito de forjar um termo, segundo a intuição de que, havendo rigor na concepção, ele instituirá algo indestrutível, para não dizer imortal. É o que nos resta de metafísica. Falamos de ideias como se falássemos de formas inteligíveis e eternas. Escrevemos livros como se transcrevêssemos os mandamentos do Deus. Talvez, por um segundo antes de se conceber um grande livro, devêssemos nos humilhar diante do mundo e nos embasbacar com a teia caótica de ideias perdidas e reencontradas num ciclo sem fim. Atuamos no plano da parcialidade. Há olhares baços e agudos, mas nunca o olhar absolutamente baço ou agudo. A grande ideia é sempre uma fatia maior recortada do caos. Nunca estará completa.

 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Novidade


Para essa minha primeira postagem, invoco o tema da mudança, da superação do estabelecido. Li recentemente o romance “um cântico para Leibowitz” de Walter Miller Jr. Está classificado como ficção científica, mas preenche bem poucos requisitos desse gênero, em minha opinião. Para mim, é um texto que recria todo o movimento de evolução e revolução desde a alta Idade Média até o século XX. Tudo isso foi desenvolvido alegoricamente com a descrição do remanescente sobrevivente de uma guerra nuclear. É um texto com grandes questões. O debate infindo sobre os limites que deveriam ou não serem impostos para o desenvolvimento intelectual e científico. Como ilustração, separei uma passagem que representa bem essa problemática. É a fala da personagem de um filósofo que faz lembrar muito Descartes.

 

— Concluindo — disse — é este um rápido apanhado do que o mundo pode esperar, na minha opinião, da revolução intelectual que está principiando. — Olhou em volta da sala e a sua voz passou do natural a um tom fervoroso. — A ignorância tem reinado sobre nós. Desde a morte do império, é ela que tem dominado o Homem sem encontrar resistência. A sua dinastia é antiqüíssima e o seu direito de reinar já é hoje considerado legítimo. Os sábios do passado assim o afirmaram e nada fizeram para destroná-la. Amanhã, porém, um outro príncipe reinará. O seu trono será cercado por homens de sabedoria e de ciência, e o universo conhecerá o seu poder. O seu nome é "Verdade". O seu império se estenderá por toda a Terra. E o poder do Homem sobre ela será restabelecido. Dentro de um século, os homens voarão pelo ar dentro de pássaros mecânicos. Carruagens de metal correrão pelas estradas pavimentadas pelo Homem. Haverá construções de trinta andares e máquinas para fazer todos os trabalhos. E de que maneira acontecerá tudo isso? — Parou um pouco e abaixou a voz. — Da maneira pela qual todas as grandes mudanças se processam, infelizmente. E lamento que seja assim. Acontecerá por meio da violência e de levantes, do fogo e da fúria, pois, no mundo, nenhuma mudança jamais se realizou tranqüilamente.”