No aforismo 46 do
Novum Organum, Bacon fala assim das superstições religiosas e filosóficas:
O intelecto humano,
quando assente em uma convicção (ou por já bem aceita e acreditada ou porque o
agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior número, não
observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a
distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo.
Graças a isso, a autoridade daquelas primeiras afirmações permanece inviolada.
E bem se houve aquele que, ante um quadro pendurado no templo, como ex-voto dos
que se salvaram dos perigos de um naufrágio, instado a dizer se ainda se
recusava a aí reconhecer a providência dos deuses, indagou por sua vez: "E
onde estão pintados aqueles que, a despeito do seu voto, pereceram?" Essa
é a base de praticamente toda superstição, trate-se de astrologia,
interpretação de sonhos, augúrios e que tais: encantados, os homens, com tal
sorte de quimeras, marcam os eventos em que a predição se cumpre; quando falha
o que é bem mais frequente —, negligenciam-nos e passam adiante. Esse mal se
insinua de maneira muito mais sutil na filosofia e nas ciências. Nestas, o de
início aceito tudo impregna e reduz o que segue. Até quando parece mais firme e
aceitável. Mais ainda: mesmo não estando presentes essa complacência e falta de
fundamento a que nos referimos, o intelecto humano tem o erro peculiar e
perpétuo de mais se mover e excitar pelos eventos afirmativos que pelos
negativos, quando deveria rigorosa e sistematicamente atentar para ambos. Vamos
mais longe: na constituição de todo axioma verdadeiro, têm mais força as
instâncias negativas.