segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Kafka: do sentir-se fora



Que estranho é amar e se encantar pelo distante, pelo que nega e desgosta do mundo estabelecido. Como se pode gostar de Kafka? Como se pode amar o sentir-se expropriado? Pode-se. Sei que se pode, embora o paradoxo não seja abandonado assim. Deveríamos estar no mundo. Deveríamos nem sequer falar dele como se falássemos de algo de lá, de outra coisa. Deveríamos simplesmente nos perder no mundo. Mas nós, amantes de Kafka e de todo sentir-se fora, estamos estupidificados diante disso tudo. Que absurdo é querer o mundo e não saber como tê-lo. Amamos o prazer, o riso. Amamos a sensualidade, a dúvida. Amamos, mas não sabemos o que se faz para explorar esses amores como o feitor diligente a seus escravos. Não somos feitores. O mundo aparece estranho. Que desenraizamento. Que inveja das árvores.